Em 1998, Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente da República em primeiro turno. Em Pedro Leopoldo, recebeu 11.604 votos, contra 8.183 de Lula, o segundo colocado. Em 2002, foi a vez de Lula vencer a eleição presidencial. No segundo turno, obteve 23.977 votos na cidade, contra 6.707 de José Serra. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil, com 21.303 votos em Pedro Leopoldo, enquanto Fernando Haddad, do PT, recebeu 11.414.
Em todas essas ocasiões, no dia seguinte à eleição, a vida seguiu seu curso. A população continuava comprando carne, pão, roupas e sapatos nas lojas de sua preferência. Escolhia onde comprar pelo preço, pela qualidade, pela cor do produto ou, simplesmente, pela amizade e simpatia pelo dono do estabelecimento. A proximidade com o comerciante podia tornar a relação mais agradável, criar confiança e fidelizar o cliente. Mas, até então, a preferência política do proprietário não era motivo para deixar de frequentar seu negócio. Nunca, repito, nunca.
Na véspera, cliente e comerciante poderiam ter se encontrado na mesma seção eleitoral. Amparados pela Constituição de 1988 e pelas liberdades democráticas, ambos tinham o direito de manifestar suas escolhas políticas, em bottons, camisetas ou conversas. Às vezes, discutiam. Em outras, o debate esquentava, os ânimos se exaltavam e a amizade podia até ficar estremecida por algum tempo. Mas a vida cotidiana encontrava um jeito de seguir em frente. Se o cliente e o açougueiro deixassem de se falar por causa da eleição, a mulher ou o filho do freguês iam ao estabelecimento no dia seguinte comprar os bifes para o almoço. Aos poucos, a poeira baixava, o assunto perdia força e os dois pedro-leopoldenses voltavam a se encontrar diante do balcão. A defesa de Lula, Serra ou Bolsonaro ficava para a próxima eleição, quando cada um apresentaria seus argumentos, com maior ou menor entusiasmo.
Mesmo com a polarização avançando e os ânimos se acirrando a cada pleito, havia uma espécie de pacto silencioso de convivência: terminada a campanha, a vida continuava. Mas parece que alguma coisa mudou. E minha cidade corre o risco de perder algo essencial: a civilidade, a tolerância, o respeito às diferenças e, em última instância, a própria humanidade. Tenho visto nas redes sociais que alguns conterrâneos, aparentemente eleitores de Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula na eleição deste domingo, elaboraram e divulgaram uma lista de comerciantes e prestadores de serviços “esquerdistas”, ou, no caso, que teriam votado no candidato vencedor. O objetivo, segundo as manifestações publicadas, seria orientar outras pessoas a deixar de consumir seus produtos ou contratar seus serviços.
Nada mais nada menos que um índex da intolerância: uma relação de estabelecimentos e profissionais que deveriam ser boicotados por causa de suas escolhas políticas. Pessoas que, ao manifestarem publicamente seu voto, exerceram uma liberdade assegurada pela democracia. Para os autores dessa escandalosa publicação, a recomendação é não comprar as sandálias de quem votou no PT. Não frequentar a academia de quem “fez o L”. Não ouvir a música de quem declarou apoio a Lula. Não tomar uma cerveja no bar de quem preferiu o candidato petista a Flávio Bolsonaro.
Desde quando a preferência política de alguém determina a qualidade de um produto, a competência de um profissional ou o atendimento oferecido por um estabelecimento? Desde quando a escolha de um presidente transforma um comerciante em inimigo de seus próprios conterrâneos? A história mostra aonde podem levar a intolerância e a desumanização do outro. Mesmo que as situações sejam tragicamente distintas, há um precedente que não deve ser esquecido: a perseguição aos judeus na Alemanha nazista começou, entre outras medidas, com a tentativa de isolá-los da vida econômica e social. Segundo a Enciclopédia do Holocausto, o boicote aos judeus, conhecido como Judenboykott, foi a primeira ação coordenada nacionalmente pelo regime nazista contra os judeus na Alemanha. Em 1º de abril de 1933, os nazistas organizaram uma campanha para impedir que a população comprasse em lojas e estabelecimentos identificados como pertencentes a judeus. Médicos, advogados e outros profissionais judeus também foram alvos da iniciativa.
Ninguém é obrigado a concordar com o voto do outro, mas a democracia pressupõe justamente a capacidade de conviver com quem pensa diferente. Podemos discutir, discordar, argumentar e até nos decepcionar com o resultado de uma eleição. O que não podemos é transformar a divergência política em autorização para perseguir, constranger ou tentar arruinar a vida de quem fez uma escolha diferente. E obrigá-lo a esconder em quem votou para preservar o próprio sustento.
Estou escandalizada. E, sobretudo, triste. Não apenas pela lista, mas pelo que ela representa. Nossa cidade não é feita somente de ruas, lojas, empresas e serviços. É feita de confiança, de convivência e de histórias compartilhadas. O comerciante que está na lista é o vizinho de muitos anos, o colega de escola, o empresário que emprega e contribui para a economia local, que faz trabalho voluntário e fortalece a vida comunitária. Ele é nosso conterrâneo, é nosso amigo.

