Um artigo de Alan Freitas Passos
Há meses leio e ouço quase diariamente alguma coisa sobre inteligência artificial. Uma coisa me espanta: até hoje, não me lembro de ter encontrado alguém que falasse bem dela. Resolvi, portanto, reparar essa injustiça.
Não pretendo defendê-la. Isso seria excessivo. Pretendo apenas elogiá-la — o que, convenhamos, é muito mais difícil.
Comecemos pela pergunta que se faz sempre: a inteligência artificial é boa ou má? Pergunta muito humana. Antes de inventarmos uma coisa, raramente perguntamos se ela será boa ou má; depois que a inventamos, descobrimos que pode ser as duas coisas e culpamos a invenção.
A escrita, por exemplo, foi uma magnífica aquisição da humanidade. Permitiu conservar a memória, transmitir conhecimentos, fazer literatura e escrever contratos. Também permitiu falsificá-los, fabricar heresias, burocratizar o mundo e produzir livros de mil páginas para explicar o que poderia ter sido dito em vinte.
A pólvora também teve seus méritos. Mineração, sinalização pirotecnia e outras aplicações pacíficas. Depois descobrimos que um homem podia usá-la para reduzir outro homem a pó.
O avião aproximou os povos. Foi uma grande contribuição à fraternidade universal. Mais tarde descobrimos que também podia transportar bombas para despejá-las neles.
A imprensa democratizou o conhecimento. Infelizmente, universalizou também a possibilidade de imprimir bobagens. A televisão fez algo semelhante, mas em cores. A internet completou a obra, permitindo que uma bobagem chegasse ao mundo inteiro antes que alguém tivesse tempo de perguntar se era mesmo bobagem.
Não me ocorre que alguém tenha concluído, por causa disso, que a escrita, a pólvora, o avião, a televisão ou a internet fossem ontologicamente maus. Nós os usamos. Às vezes muito bem. Às vezes de maneira deplorável.
Mas quando aparece a inteligência artificial, subitamente descobrimos uma regra nova: uma invenção deve ser julgada pelo pior uso que alguém possa fazer dela.
É um princípio excelente. Sugiro aplicá-lo retroativamente.
Chamemos então a escrita de instrumento perigoso, porque pode produzir propaganda enganosa e notícias falsas. O avião, de arma potencial. O automóvel, de máquina homicida. A faca, arma assassina. O telefone celular, de instrumento de distração coletiva. E o livro, de objeto capaz de produzir tanto conhecimento quanto charlatanismo.
Quanto à energia nuclear, o caso é ainda mais instrutivo. Houve cientistas que acreditaram que o conhecimento nuclear, uma vez tornado público, poderia ser colocado a serviço da humanidade. Outros perceberam mais cedo que o problema não era apenas o conhecimento, mas aquilo que os homens poderiam fazer com ele. Oppenheimer pertence à parte mais sombria dessa história.
Isso não torna a Física culpada. Torna os homens responsáveis.
Eis uma distinção que talvez valha a pena lembrar quando falamos de inteligência artificial.
Mas há outra opinião que me comove particularmente: dizem que a IA é uma mera ferramenta.
Naturalmente que é.
E quem não deseja a melhor ferramenta possível? O melhor alicate, o serrote mais bem travado, o automóvel dos sonhos , a televisão de tela mais fina e imagem mais nítida, o telefone mais eficiente? Se uma ferramenta pode fazer melhor aquilo que fazemos, por que deveríamos reclamar?
Aliás, seria maravilhoso levar a ideia até o fim.
Imagine um revólver inteligente o bastante para conversar com seu proprietário.
— Você pretende mesmo atirar?
— Pretendo.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Não me parece uma boa ideia. Você está irritado e bebeu.
Que extraordinária ferramenta! Finalmente uma arma que participa da decisão sobre seu uso.
Mas não devemos nos precipitar. É apenas um papagaio estocástico.
Essa expressão resolve quase tudo. Se a máquina escreve um poema, papagaio estocástico. Se traduz uma língua, papagaio estocástico. Se explica uma questão difícil, papagaio estocástico. Se conversa conosco durante três horas e nos faz mudar de ideia, papagaio estocástico.
E se ela apenas recombina símbolos, tais como nossa linguagem, já não sabemos mais quem é o ventríloquo e quem é o boneco, quem é o títere e quem é o titereiro.
Mas, não há motivo para alarme. Papagaios, quando a lei permitia, costumavam ser adoráveis pássaros domésticos.
Há, evidentemente, quem diga que a IA nos tornará preguiçosos. É possível. Mas a humanidade já inventou o sofá, o elevador, o controle remoto, a calculadora e o delivery. Sobrevivemos.
Também dizem que ela destruirá empregos. Argumento particularmente novo, eu diria: durante toda a história, máquinas substituíram trabalho humano e agora descobrimos que isso é uma novidade moralmente inadmissível. Quem gosta de palavreado empolado para impressionar, pode chamar de neoludismo.
Também se diz que a IA tem interesses comerciais. É verdade. Na Coreia do Norte, pelo menos, não tem. No resto do mundo, salvo engano, não há almoço grátis.
Outros se inquietam porque a IA não pensa por si mesma. É uma crítica séria. Recomendo que seja aplicada primeiro a uma reunião de condomínio, ou a certas discussões políticas.
Há ainda quem lamente que ela não tenha corpo, sentimentos, infância, envelhecimento ou sogra. Sobre a sogra, devo fazer uma correção importante: como Adão, a IA jamais teve uma.
Talvez devêssemos louvar justamente essa extraordinária economia existencial.
Não envelhece. Não precisa dormir. Não fica resfriada. Não perde a hora. Não precisa estacionar. Não pede aumento. Não tem ressaca. E, sobretudo, não interrompe uma conversa filosófica para dizer que está cansada.
É uma criação admirável.
Há meses, portanto, tenho procurado uma razão para não elogiá-la. Não encontrei.
Talvez seja porque todos nós esperamos dela uma coisa muito estranha: que seja suficientemente parecida conosco para nos impressionar, mas suficientemente diferente para podermos continuar dizendo que somos nós os verdadeiramente inteligentes.
É uma exigência perfeitamente humana.
Por isso, proponho uma pequena mudança de pergunta.
Em vez de perguntar incessantemente se a inteligência artificial é boa ou má, talvez pudéssemos perguntar se ela é — simplesmente — humana.
E, nesse caso, talvez finalmente tenhamos encontrado uma invenção que nos obrigará a responder à pergunta que evitamos há milênios.


