Segundo Gabriel Pezzini, se comparado ao da média nacional, o voto pedro-leopoldense tende, de maneira notável, mesmo que não dramática, para a direita
Ao se analisar tanto a eleição presidencial de 2022 quanto as deste ano, cujo primeiro turno se deu no último domingo, um padrão se destaca. Se comparado à média nacional, o voto pedro-leopoldense tende, de maneira notável, mesmo que não dramática, para a direita. No primeiro turno de 2022, Jair Bolsonaro conquistou 48% do eleitorado pedro-leopoldense contra 43% dos votos válidos de Lula, números perfeitamente inversos àqueles do total observado no Brasil.
Já no segundo turno daquele ano, Jair venceu por 55%, contra 45% dos petistas, enquanto que nacionalmente o ex-capitão do Exército teve 49%, sendo derrotado por dois pontos percentuais pelo atual presidente. Em 2026, como se pode observar no gráfico abaixo, o padrão se repetiu: Flávio Bolsonaro teve 48% dos votos registrados e 51% dos votos válidos, enquanto Lula garantiu 36% dos votos totais, o que perfaz 37,6% dos válidos. No nosso município, Flávio ganha seis pontos percentuais, enquanto Lula perde quantidade semelhante de votos.
Mas o que pode explicar a diferença do nosso padrão de voto para a média nacional? Sabemos que alguns fatores demográficos são apontados pelos principais institutos de pesquisa do País, caso do Quaest e do Datafolha, como preponderantes na determinação do comportamento do eleitorado, tais como renda, escolaridade, religião e faixa etária. Vamos então, aos dados do último Censo, realizado pelo IBGE em 2022. Naquele ano, nossa renda domiciliar por habitante foi de R$ 1184,00, contra os cerca de R$ 1000,00 no País como um todo. 56% dos trabalhadores ganham até um salário mínimo, contra 61% no âmbito nacional. 34% da população tem apenas o Ensino Fundamental, número virtualmente idêntico aos 35% do cenário brasileiro consolidado.
Temos 28,6% de evangélicos, ligeiramente superior aos 26,8% que perfazem a média brasileira. Já nossa idade mediana é 37 anos, contra 35 anos de todos os brasileiros. Mesmo que as diferenças sejam pequenas, elas parecem se somar compondo uma tendência à direita: de acordo com o observado nas pesquisas, eleitores de maior renda, mais escolarizados, evangélicos, mais velhos e localizados na região Sudeste tendem a votar com maior frequência na direita do que aqueles de menor renda, menos escolarizados, não evangélicos, mais jovens e residentes no Norte-Nordeste. De fato, aplicando-se a Pedro Leopoldo os coeficientes que Sergio Simoni Junior, em artigo científico recente, obteve para renda, escolaridade e região, no segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro teria obtido 53% dos votos válidos, bem próximo aos 55% conquistados na cidade pelo ex-capitão do Exército.
E para os cargo de deputado federal e estadual, como nos comparamos ao resto do Brasil? Sabemos que o sistema partidário brasileiro é bastante fragmentado e que o excesso de candidaturas dificulta a formação do voto do eleitor. Também fica difícil discutir os resultados para cargos do Legislativo em termos de partido. De forma a se reduzir o problema, reparti o quadro de legendas no Brasil em quatro grandes grupos: direita convicta (PL e NOVO), a federação União Progressista (PP e União Brasil), demais siglas de centro, a centro-direita ou do Centrão (MDB, PSD, Republicanos, Podemos, Federação PSDB-Cidadania, dentre outras) e a esquerda (federação PT-PV-PCdoB, federação PSOL-Rede, PDT e PSB).
Aqui os desvios são maiores: a direita conquistou 48% dos votos pedro-leopoldenses para a Câmara dos Deputados, contra 25% no âmbito nacional. Esse desempenho veio às custas sobretudo do grupo da centro-direita. A esquerda tem desempenho bem parecido com a média nacional. O que explica tamanha diferença? Há que se considerar o peso de fatores locais nas eleições para o Legislativo. Em outras palavras, o famoso quem apoia quem.
Na nossa cidade, o PL levou sozinho 47% dos votos para deputado federal: mais de 16 mil eleitores, dos quais mais de 13 mil foram para Nikolas Ferreira, campeão nacional de votos, reflexo tanto da estratégia do partido de concentrar a campanha em seu rosto quanto pela boa mobilização da base bolsonarista em Pedro Leopoldo, coordenada por Ricardo Silva, do grupo Direita PL. É importante lembrar que o deputado reeleito esteve na cidade, destinando recursos de emendas parlamentares à nossa maternidade. Ainda no Partido Liberal, digno de destaque é Rodrigo Tavares, apoiado pelo vereador Rafa, presidente da Câmara Municipal, com quase 1379 votos.
O também reeleito Fred Costa, do PRD, recebeu 989 votos, reflexo do apoio do prefeito Emiliano Braga. Gilberto Abramo (Republicanos), respaldado em Pedro Leopoldo pelo grupo do ex-prefeito Tadeu, também conseguiu renovar sua cadeira. Junynho Martins, ex-prefeito de Ribeirão das Neves respaldado em Pedro Leopoldo pelo vice-prefeito Leozão, teve mais de dois mil votos localmente, mas não se elegeu.
O padrão da esquerda revelou mais fragmentação: enquanto o vereador Gael Silveira, do PT, apoiou Bella Gonçalves, a presidente do partido, Camila Rajão, fez campanha para Gleide Andrade, tesoureira nacional do PT. Já o empresário Roberto Leles, presidente municipal do PV, trouxe para o município a campanha de Lohanna França. Muitos outros candidatos de esquerda obtiveram votações significativas em Pedro Leopoldo, o que pode refletir uma maior disciplina e centralização da direita nas campanhas para o Legislativo, ao passo em que os grupos da esquerda atuam de forma mais independente.
A expressiva votação do Progressistas para o cargo de deputado estadual no município se deve, em grande medida, pelo intenso apoio prestado por Emiliano a Nayara Rocha, liderança do Vetor Norte que destina recursos ao município e se reelegeu com mais de 76 mil votos, quase dez mil deles conquistados aqui. Na dobradinha com Nikolas, Pablo Almeida (PL), vereador de Belo Horizonte apoiado por Ricardo Silva, conseguiu 1522 votos entre os munícipes. O postulante apoiado por Tadeu, Adalclever Lopes, do PV, que não conseguiu se eleger, obteve apenas 301 votos em Pedro Leopoldo.
Rafael Martins, candidato que mantém escritório na cidade e que contou com o apoio do ex-prefeito Marcelo Gonçalves e de Rafa, atual presidente da Câmara Municipal, também angariou a expressiva votação de mais de cinco mil votos. Mas não foi reeleito para a Assembleia, ficando na suplência. Betão (PT), candidato de Gael, conseguiu 657 votos, e Bella Gonçalves, também apoiada pelo vereador, conquistou 949 eleitores pedro-leopoldenses. Deixou a Assembleia e elegeu-se deputada federal pelo PT. Roberto Leles trouxe para as ruas do município a campanha de Marcelo Monteiro (PV), vereador de Lagoa Santa em sua primeira candidatura à Assembleia, que não foi eleito. Já Lohana França foi eleita deputada federal.
O que dizer das votações para governador e senador? Nesses dois cargos, as votações estão mais alinhadas com o cenário estadual. Por aqui, o vencedor Cleitinho Azevedo (Republicanos) conquistou 48% dos votos contra 50% no estado como um todo. Patrus, liderança histórica do PT, ficou com 21%, contra 24% observado em Minas Gerais. Na disputa das duas vagas pelo Senado, a única diferença significativa é o fato de que entre os pedro-leopoldenses, o jornalista Carlos Viana, do PSD, ficou em segundo lugar, com 13.330 votos (17,04%) à frente da candidata eleita Marília Campos (PT), ex-prefeita da Contagem por quatro mandatos. Ela teve aqui 11.639 votos ou 14,88% do total, enquanto em Minas teve 15,80%. São resultados que, de um modo geral, refletem relativo desvio à direita do comportamento eleitoral pedro-leopoldense em relação à média nacional.
Em conclusão, é possível apontar alguns destaques nesta análise. Em primeiro lugar, o comportamento eleitoral pedro-leopoldense não destoa significativamente daquele esperado para municípios de parâmetros demográficos semelhantes dentro da região Sudeste, embora seja possível que a existência de lideranças fortes à direita, incluindo o prefeito em exercício, também explique parte do sucesso dos candidatos do campo conservador.
Na competição para deputado federal ou estadual, é necessário recorrer não apenas a fatores nacionais, como também locais, como causa dos padrões observados de votação. Em terceiro lugar, mas não menos importante, observa-se por aqui uma maior disciplina da direita no tocante à estratégia eleitoral e uma maior capacidade de transferir os votos dados na campanha presidencial para os outros quatro cargos em disputa.
Foge do escopo desta análise se isso se deve a diferenças de comunicação; de estratégia dos partidos quanto a financiamento de campanha ou da maior expressividade de doadores privados; à vantagem geral obtida por Flávio sobre Lula no pleito do último domingo ou a fatores sociais que tornam a direita sistematicamente mais competitiva que a esquerda na Pedro Leopoldo e no Brasil de 2026.



