
Pedro Leopoldo é pródiga em escritores, tanto é que aqui nasceu um acima da média – José Issa Filho, elogiado por Fábio Lucas, um dos maiores críticos literários brasileiros. Como ele, nossos escritores escrevem sobre as coisas deste reino, pintando a aldeia para ser universal, como aconselhou Tolstoi. Alguns, porém, se debruçam sobre temas globais e na cesta de amor, poder, ambição, violência e dinheiro nas quais são tecidas as melhores tramas. É uma aventura e tanto escrever um romance policial e foi a isso que se dispôs, com competência, o escritor Gilberto Rocha Filho.
Dentista como José Issa, ele é também poeta e músico – faz parte das nossas melhores lembranças na formação da saudosa banda The Fhuntos. O escritor que vive em Gilberto nasceu com o livro “O voo da coruja”, thriller que devorei em alguns dias, mesmo assim porque, nesta pandemia, os afazeres profissionais e da casa me impedirem de saboreá-lo de uma tacada só. Com pouco mais de 150 páginas, é diversão garantida para um fim de semana de imersão total.
Está tudo lá: o assassinato, o investigador obrigado a largar a cerveja e futebol de domingo para apurar o crime, o legista engraçadinho, as forças ocultas do poder impedindo a investigação e impondo o arquivamento do inquérito, a corrupção e seus meandros na política e no serviço público – tudo isso observado e vivido por um protagonista atormentado, desencantado de seus ideais de justiça e imerso em sexo, drogas e até amor. São ingredientes de uma receita a que os fãs do gênero estão confortavelmente acostumados, o que torna mais suave o caminho rumo a um desfecho imprevisível, surpreendente como exigem os finais das boas histórias.
Devastado por suas falhas e dúvidas, o protagonista não tem nome e ninguém parece querer sabê-lo. Um detalhe que, pode ter certeza, você só vai descobrir muito tempo depois de ter lido o livro… e gostado. Quem cerca o investigador é nominado: o professor de natação assassinado, o poderoso deputado, sua filha belíssima com a qual ele vive uma paixão incontrolável, a funcionária que também frequenta sua cama, o colega solidário, o delegado corrupto e demais colegas da delegacia, um cemitério “onde se enterravam a inteligência, a sanidade e as esperanças”, substituídas pelo “tarefismo, o carreirismo, a bajulação, a ascensão sem critério” que, na visão do autor, dominam o serviço público.
Volta e meia, os obstáculos à investigação levam o detetive, investigador, xerife e até Sherlock Holmes, como o identificam, a se questionar. Por que se desgastar, colocando o emprego e até a vida em risco, se apenas um crime em cem é solucionado no país? Mas mesmo a ineficiência que garante a impunidade não o impede de continuar sua errática e até suicida busca pela verdade. O desfecho da trama devolve ao protagonista não só o nome como a dignidade…. que vêm juntos com o verdadeiro amor e a consequente redenção.
No livro, são recorrentes as boas citações de músicas e/ou autores famosos, que vão de Nelson Rodrigues e Drummond a Jobim e Lô Borges e encontram um roteiro vigoroso e certeiro, sem nenhuma lenga-lenga que faça perder o fio da história. “O voo da coruja” é leitura gostosa, ideal para esses dias sempre iguais, com poucas opções de lazer, principalmente para quem é obrigado a isolar-se nesta pandemia. No final, dá vontade de ler mais, um presente que o escritor promete nos oferecer em breve, com os demais volumes de uma trilogia de casos tão instigantes quanto o de seu primeiro romance. Que venham os próximos, Gilberto.
SERVIÇO – O “Voo da Coruja, de Gilberto Rocha Filho, pode ser encontrado nos sites das livrarias da Travessa e Martins Fontes. Versão e-books no site da editora Chiado. Ou no consultório do autor, à rua dr Rocha 837, sala 15 (à tarde) – tel: 36621026